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Sêneca afirmava ser seguidor da filosofia estóica. Por isso, cabe compreender um pouco a arte de viver estóica para que possamos melhor entender o pensamento de Sêneca. O estoicismo é uma escola filosófica que surge no final do século IV a.C., com Zenão. É dividida tradicionalmente em três períodos: o estoicismo antigo, o médio e o estoicismo romano. Sêneca é um autor do estoicismo romano. Nesse período, os autores do estoicismo (tais como Sêneca, Marco Aurélio e Epíteto) voltam-se, principalmente, para a reflexão das questões ligadas à moral.
Para Sêneca, somente se poderá alcançar a tranqüilidade de alma quem se liberta da servidão das paixões. Somente se o homem estiver orientado pelas virtudes poderá não se deixa levar pelos excessos e pelas agitações externas. Para isso, é preciso um movimento de retorno a si, como um reivindicar-se a si mesmo. Dizia Sêneca: "Observa-te a ti mesmo, analisa-te de vários ângulos, estuda-te." Reivindicar a si mesmo implica em afastar-se da opinião das massas, libertar-se das paixões e renunciar as agitações externas. Esse assenhoramento de si é justamente o pressuposto para que homem possa se guiar pela razão. Ora, quando o homem não é senhor de si, é governado pelo que lhe é externo: as paixões o governam. É nesse contexto de devemos compreender a frase de Sêneca: "É livre quem deixou de ser escravo de si mesmo." É somente quando o homem consegue estar de volta a si, que poderá agir conforme a sua natureza, conforme sua razão e, assim, alcançar o estado de alma tranqüila. Sêneca entendia que "...o primeiro sinal de um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar e de coabitar consigo mesmo" O bem-estar para um estóico não consiste numa vida de prazeres, mas sim em um estado de tranqüilidade da alma que se funda na relação harmônica com a natureza. A natureza para os estoicistas é concebida como uma natureza racional. Entendiam que há em todas as coisas existentes na natureza uma determinada ordenação e racionalidade. Ora, desta natureza os homens também fazem parte. Assim, seguir a racionalidade que há na natureza, significa seguir essa natureza universal na qual o homem está integrado. Essa racionalidade que precisa ser reproduzida na vida do homem é "razão". E quem nos ensina a agir conforme a nossa natureza racional é justamente a filosofia.
Por isso Sêneca reforça a importância de seguir a natureza: A ética de Sêneca consistia em viver de acordo com a natureza. A virtude é o bem supremo e pode ser atingida pela inteligência, pela bravura, pela justiça e pelo auto-controle. Assim, deverá o homem saber quais paixões que deve moderar ou extinguir. É guiado pela razão e pela virtude que o homem encontrará o modo de vida que seja o mais adequado à sua natureza e, conseqüentemente, lhe permita viver bem. Para Sêneca "O sumo bem é característica de um espírito que despreza os dons incertos da sorte e se compraz na virtude". A ação baseada na razão e na virtude é a única forma de se ter uma vida boa e feliz, na medida em que é a única que se orienta pela natureza universal. Essa ação virtuosa serve de escudo protetor contra agitação na alma, do desassossego e da insatisfação, que pode nos causar danos se agíssemos de acordo com elas. "Então, feliz o homem dotado de reto juízo; feliz quem se contenta com seu estado e condição qualquer que seja, e aprecia o que é de sua posse; feliz quem confia à razão a gerência de toda a sua vida." "Admito que é inata em nós a estima pelo próprio corpo, admito que temos o dever de cuidar dele. Não nego que devamos dar-lhe atenção, mas nego que devamos ser seus escravos. Será escravo de muitos quem for escravo do próprio corpo, quem temer por ele em demasia, quem tudo fizer em função dele. Devemos proceder não como quem vive no interesse do corpo, mas simplesmente como quem não pode viver sem ele. Um excessivo interesse pelo corpo inquieta-nos com temores, carrega-nos de apreensões, expõe-nos aos insultos; o bem moral torna-se desprezível para aqueles que amam em excesso o corpo." Sêneca entende que o homem precisa de uma espécie de apatia para com os acontecimentos, que consiste numa aceitação sincera da sorte que cabe a cada um. Trata-se de um assentimento quanto ao destino. Para alcançar essa sincera aceitação é preciso que o homem atinja um estado de tranqüilidade da alma, que somente será possível se estiver liberto das paixões e orientado pela razão. Maria Teresa Saldanha |
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